
"Por um segundo você acredita que mudou. Que mudou para melhor. As pessoas dizem isso, que você está diferente. O sofrimento ajuda muito nesse processo, e você não quer proporcionar aquilo que vivenciou. Então, o olhar muda, e você não recorda mais de como era o mundo sem as cores. Ahh, as cores! Que delícia, você sai, observa cada movimento, cada detalhe. Conta joaninhas, procura desenhos em nuvens e admira a pureza contida no olhar de uma criança. Diz, em alto e bom som, que as melhores pessoas que alguém pode conhecer antes de partir são os amigos que conquistou ao longo dos anos.Então, você descobre que isso era só uma fase, ao contrário do seu lado amargo. Descobre que você nunca mudou. Ainda sente prazer no estrago que consegue proporcionar. A ausência da cor sempre foi mais interessante. As crianças não passam dos adultos hipócritas do amanhã. As joaninhas? Não perdemos muito tempo observando-as, isso é se a notamos.E você descobre que os amigos nem são tão amigos assim.Sua maneira ríspida nunca foi uma fase, um momento. Não era questão de estar, mas sim, de ser. A alegria não está em viver e não consegue encontrar algo que possa sentir falta. A alegria está em saber que o seu tempo está passando, se esgotando, que toda viagem deve ter sua volta. A morte é a única certeza, e no momento a tragédia é não morrer."